As áreas atacadas pela facção criminosa não foram escolhidas aleatoriamente, e o Ministério Público do Ceará não tem registro de ataques em áreas nobres, segundo o promotor de Justiça, Adriano Saraiva, que é coordenador do Grupo de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco).
90% sem internet em Caridade
Centnas de cabos de internet foram rompidos durante ataque de facções criminosas no Ceará — Foto: Reprodução
Segundo o secretário, os criminosos têm maior dificuldade de atuar em bairros nobres. Por isso, o foco maior é nas periferias, onde há menos policiamento e menor presença do estado, assim como em cidades menores.
“Uma cidade como Caridade, que é uma cidade pequena, que não tem policiamento tão forte como a cidade vizinha, Canindé. Em Caridade, não tem a metade do policiamento que tem lá em Canindé. Então, eles escolhem esses locais em que o acesso para eles é mais fácil, e a fiscalização, o efetivo policial é pequeno, é diminuto”, complementou.
Caridade é a cidade mais afetada, onde 90% dos clientes ficaram por semanas sem internet, conforme estimativa da Associação de Provedores do Ceará. A maioria dos moradores do município ficou sem acesso a serviços como Pix, internet bank e sem poder se inscrever em concurso público, por exemplo.
Em 10 de março, membros do Comando Vermelho romperam centenas de cabos de fibra óptica que conectam a internet em residências e estabelecimentos. A manutenção foi realizada apenas em 27 do mesmo mês, quando policiais escoltaram os técnicos que faziam a manutenção da fiação.
Durante 17 dias, apenas os poucos clientes que contrataram serviço de internet via satélite, sem a necessidade de fiação, puderam usufruir do serviço. Na cidade, os moradores temem represálias dos criminosos e evitam comentar sobre o assunto.
R$ 20 por cliente
A investigação do Ministério Público iniciou após o recebimento de relatório encaminhado pela Polícia Militar. Segundo o documento, foi identificado que o Comando Vermelho estava exigindo das empresas pagamentos mensais de R$ 20,00 por cliente, sob pena de represálias.
“Ou eles [empresários] cediam a essa exigência e começavam a pagar essa taxa, ou eles iam ser prejudicados, porque eles [criminosos] iam cortar o serviço, depredar todo o material, cortar as fiações e esses provedores não passariam mais a funcionar naquele determinado local”, explicou o promotor.
O Ministério Público informou que, após a negativa dos empresários em atender à exigência, atos de vandalismo e depredação foram registrados, incluindo a destruição de caixas de transmissão, antenas e redes de fibra ótica. O promotor Adriano Saraiva disse que, conforme as investigações do MP, não há registros de outras facções cometendo crimes similares.
Os crimes ocorreram, na maioria das vezes, no período da madrugada, especialmente após a meia-noite, quando havia menor circulação de pessoas nos locais e, consequentemente, menos policiamento.
Infográfico mostra cidades do Ceará e bairros de Fortaleza onde houve ataques a operadoras de internet. — Foto: Arte g1
Contra-ataque e prisões
Quatro prisões ocorreram em fevereiro e outras 36 foram resultados de três fases da Operação Strike, montada pelas forças de segurança especialmente para combater esse tipo de crime.
Além das prisões, veículos, diversos aparelhos celulares, armas e munições também foram apreendidos.
Prisões de envolvidos nos ataques a empresas de internet
Criminosos destroem veículos e atacam provedoras de internet que recusam pagar ‘taxa’ a facção criminosa no Ceará — Foto: TV Verdes Mares/Reprodução
O delegado regional de Canindé, Cleidsom Pereira Fernandes, explicou que, na penúltima fase da operação, foram identificadas as pessoas que financiavam os ataques. Na última, foram os executores. “Eles que iam para a rua, cortavam os fios, eles que danificavam as caixas de internet”, diz.
“Geralmente eles se dividiam em grupos de três ou quatro, e, na madrugada, depois das duas da manhã, eles passavam nas imediações dos postes e danificavam os equipamentos. Sempre na madrugada”, detalhou o delegado.
Ele comentou ainda sobre as ameaças que comerciantes e provedores de internet sofreram. “As ameaças vinham de números de telefones de outro estado. Esse grupo era responsável apenas por quebrar os equipamentos”, complementou.
Empresas fecham as portas: ‘devastaram tudo’
Uma das empresas é a provedora de internet ‘GPX Telecom’, de Caucaia. Por meio de nota, a empresa disse que “em menos de 20 minutos, atos de vandalismo devastaram tudo o que construímos com tanto esforço e comprometimento, levando-nos a tomar a difícil decisão de encerrar nossas operações”.
Empresa comunica encerramento após ataques. — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Confira a nota completa escrita pela empresa GPX Telecom:
“É com um profundo sentimento de tristeza que anunciamos o encerramento de nossas atividades. Ao longo de nove anos, desde 2016, tivemos a honra de servir com dedicação e alegria os Bairros Parque Soledade, São Gerardo e Ponte Rio Ceará. Infelizmente, em meros 20 minutos, atos de vandalismo devastaram tudo o que construímos com tanto esforço e comprometimento, levando-nos a tomar a difícil decisão de encerrar nossas operações.
Esse triste episódio evidencia a fragilidade da segurança em que vivemos nos nossos dias atuais, onde o trabalho árduo de anos pode ser destruído em questão de minutos. Sempre priorizamos a qualidade e a legalidade em nossos serviços, e somos imensamente gratos pela confiança que vocês depositaram em nós ao longo dessa jornada.
Esperamos por justiça diante dessa situação alarmante que afeta a todos nós. Agradecemos, sinceramente, a cada um de vocês pelo apoio e pela compreensão.”
Cronologia dos ataques no Ceará
- 28 de março: terceira fase da operação contra o grupo criminoso prende oito pessoas, totalizando 40 prisões de envolvidos nos ataques coordenados.
- 20 de março: membros da facção criminosa incendeiam carro de operadora em Fortaleza.
- 11 de março: criminosos jogaram pedras contra um veículo da empresa Brisanet na cidade de Caucaia.
- 10 de março: a fachada da empresa Acnet, na cidade de Caucaia, foi alvo de vários tiros.
- 10 de março: membros de facção destruíram fiação de uma empresa de internet em Caucaia.
- 9 de março: um dia após o governador anunciar combate a esse tipo de crime, uma empresa foi atacada na madrugada no Bairro Sítios Novos, em Caucaia.
- 8 de março: o governador do Ceará, Elmano de Freitas, anuncia criação de grupo para combater a facção que ataca as provedoras de internet no estado.
- 7 de março: criminosos destruíram várias fiações de uma operadora na cidade de Caridade; 90% dos clientes do município ficaram sem internet.
- 6 de março: um carro de serviço da Brisanet foi completamente destruído pelas chamas no Conjunto Metropolitano, em Caucaia.
- 27 de fevereiro: no distrito do Pecém, no município de São Gonçalo do Amarante, onde está localizado o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), criminosos invadiram e vandalizaram uma empresa.
- 22 de fevereiro: no Bairro Jacarecanga, em Fortaleza, dois veículos da empresa Brisanet foram destruídos em incêndio.
Operação Strike: ações das Forças de Segurança de combate a crimes contra provedores de internet já resultaram em 40 capturas — Foto: Divulgação
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